03 setembro 2025

Análise do jogo - "Once a Tale" (PC) - Irmãos em muitas aventuras!

 Once a Tale:

o game conto de fadas

onde nem tudo é o que parece

 

NiLo Mendes

 

O nome do jogo é sugestivo: “Once a Tale”, do inglês - “uma vez, um conto”. À primeira vista, olhando as imagens ou mesmo assistindo ao trailer, parece um jogo infantil e simplório, feito exatamente para crianças, confesso que eu mesmo tive esse preconceito.

Eu, adulto, pensei que logo me arrependeria de jogar. Apesar da minha mente categoricamente decidir pelo não, algo me dizia para dar uma chance ao “joguinho” de conto de fadas. Então se você que está assistindo a esse vídeo, é jovem ou uma pessoa madura, não deixe-se enganar pelas aparências e fique até o final, você não irá se arrepender.

Once a Tale foi lançado em abril de 2024 pela Carcajou Games & Triple Boris. Uma produção canadense de Vincent Presseau. Um jogo stop-motion, uma técnica de animação onde agrupa-se uma sequência de imagens para criar um efeito de movimento.

Eu fiquei interessado na temática, um jogo que preserva o lúdico e faz enxergar os clássicos contos por um outro olhar. Uma perspectiva diferente daquela que nós estamos acostumados a repetir por gerações.

Vamos aos protagonistas: o irmão, Hänsel e a irmã, Gretel, espero ter pronunciado certo, traduzindo esses nomes do alemão, significam nada mais, nada menos - que João e Maria, os dois recordam o conto coletado pelos Irmãos Grimm, só que na história de Once A Tale, o casal foi abandonado pelos pais.

Assim como acontece com os irmãos no jogo “Brothers – A Tale Of Two Sons”, (caso você não tenha visto o vídeo, segue o link abaixo), a parceria entre Gretel e o Hänsel é fundamental, pois a maioria das ações serão em equipe. Sim, ocorrem movimentação e ações individuais, mas mesmo assim, sempre servirão para o benefício do outro irmão.



Contudo, diferente de “Brothers”, Once a Tale permite o jogador locomover os dois personagens a longa distância, separados e livres para explorarem os ambientes. Não há a necessidade deles estarem sempre lado a lado, mas vale recomendação: quando o jogador for avançar para a fase seguinte, Hänsel e Gretel precisam estar juntos.

É nesse sentido que o casal resgata o elo do conto original dos Grimm; a irmandade para se salvarem dos perigos que aparecem. Assim como no conto original de 1812, Gretel - ou Maria, é a irmã mais velha, enquanto Hänsel – vulgo João, é o caçula. Uma das habilidades da menina é a força nos braços para escalar lugares altos. Já Hänsel, apesar dos dois possuírem altura semelhante, tem a habilidade de engatinhar e passar por pequenos buracos e lugares onde Gretel não passaria.

Se o player tiver curiosidade e tentar inverter os papéis, o jogo vai sinalizar que a tarefa corresponde ao outro. É uma cena ingênua ver o caçula Hänsel se esforçando para ser mais “braçudo” do que a irmã. São esses pequenos detalhes criados pelos desenvolvedores, que a princípio parecem óbvios, que enriquecem o realismo do jogo, mesmo tratando-se de um conto de fadas.

Um aspecto bastante interessante de Once a Tale é o comando básico dos movimentos. Considero até mais práticos do que o dos dois irmãos do jogo “Brothers”. No teclado o W, S, A, D, barra de espaço, TAB e o botão direito do mouse resolvem praticamente tudo. É uma jogabilidade sem grandes segredos, focando assim atenção do jogador nos irmãos, sejam eles se movendo, agindo separadamente ou em conjunto. Esse controle simples facilita a realização dos objetivos da fases.

Once a Tale é um jogo de aventura, mas requer estratégia e raciocínio sagaz para desmantelar os inúmeros quebra-cabeças, entretanto, tudo de forma dinâmica; em clima de bastante ação, diferente dos puzzles de estilo comum dos jogos point and click.

A trilha sonora remonta a clássica contação de história que assistimos em filmes e desenhos animados. Uma trilha composta por músicas instrumentais, que eu sendo músico, acho na medida certa. Caso você tenha um ouvido atento, a música de cada cenário vai transmitir a atmosfera que o jogo quer passar. Por exemplo, quando Gretel e Hänsel apenas caminham, a sonoridade é tranquila, trazendo o foco do jogador para o cenário. Algumas vezes, o som pode surpreender o player, como acontece em uma fase onde os irmãos precisam fugir de um vilão, enquanto ao fundo toca uma música suave e relaxante; aqui mostra-se mais uma vez a competência dos desenvolvedores em quebrarem paradigmas sonoros no suspense da narração das histórias infantis.

Já as imagens são de alta definição, tanto do cenário, quanto das personagens. Dependendo do ângulo da câmera você consegue observar com mais detalhes os contornos.

É curioso notar que todos os personagens de Once A Tale foram feitos a mão. A técnica usada foi a fotogrametria - fotografias sobrepostas para criar modelos digitais em 3D. Alguns dos materiais de criação e, também, dos cenários foram: papel machê, lascas de madeira, papelão reciclável, latas, fios metálicos, argila de polímero; a maioria desses materiais recicláveis deu a Once A Tale, uma campanha de jogo sustentável.

Os personagens parecem ser esculpidos na madeira, como se o próprio Gepeto do conhecido conto “Pinóquio” tivesse  esculpido (será ele também uma referência dentro do contexto do jogo?)... calma, mais pra frente, conforme o avanço do jogo, você vai perceber uma junção de vários contos de fadas diferentes. Essa é a beleza criativa desse jogo, nada parece ser o que é...

Já o perfil e o figurino dos nossos protagonistas lembram o clássico casal de origem holandesa: a camisa curta do Hänsel, a trança e o vestido alaranjado de Gretel; fora os sapatos bicudos deles.

No geral eu contei em torno de doze fases. É uma perspectiva pessoal que pode variar conforme quem joga; é que na imersão do jogo, o desenrolar das fases acontece de maneira discreta, com cenas e capítulos interligados a todo momento. Nem sempre haverá mudanças bruscas.

Algumas fases serão mais rápidas, nada de muitas dificuldades para avançar. Outras serão mais complexas e trabalhosas. Ainda assim, achei Once a Tale, um jogo curto; mesmo que você gaste um tempo extra em algumas partes, não é um game extenso, coisa de quatro a cinco horas você zera.

Agora vamos a ação do jogo.

Bem, logo na primeira fase, Gretel e Hänsel estão acordando em meio a uma floresta e, como eu disse, abandonados pelos próprios pais. Nessa primeira aparição dos irmãos a cena é digna de beleza, uma animação sutil e delicada.

Logo de cara, observei que as primeiras fases servem como um tutorial que ajuda o player a criar intimidade com a dinâmica e o controle do jogo; no meu caso, o teclado, segundo a Steam é possível usar também o controle de Xbox. Nestas etapas, o jogador faz ações básicas, entende os movimentos de câmera, explora os espaços, além de interações com os ambientes e também com os outros personagens.

Em uma fase, os irmãos encontram um porco, sim remete ao conto dos três porquinhos, contudo, cuidado; ao longo do jogo nem tudo que parece é...

O tal porco pede ajuda a Gretel e Hänsel  para encontrar palha para a sua nova construção.

Há uma fase que denominei de “Moedas Caninas”, onde acontece apenas interligação entre os irmãos e o cenário. Penso ser um treino para o jogador dominar bem a mecânica do jogo; Nela pratica-se bastante a ação individual e as combinações de cooperação entre os dois. Gretel escalando pontos altos e o caçula Hänsel  fazendo o “trabalho sujo”, rastejar através de espaços pequenos.

Em outra fase, o casal precisa coletar mais palha para o tal porco, porém agora tem um agravante, a palha está onde dorme um lobo, todo cuidado é pouco! É preciso atenção aos mínimos detalhes porque pequenos objetos que a princípio aparentam insignificantes, são chamarizes para acordar o vilão.

Fica a dica: por mais que você tenha a possibilidade de procurar essa palha e de tantos outros artefatos pelo caminho com os irmãos individualmente, recomendo mantê-los próximos e fazer em equipe, porque em diversos momentos o auxílio mútuo será requisitado.

Pode se dizer que Once a Tale é um jogo para players detalhistas. É preciso que ele fuce espaços fora do óbvio, além de coletar itens simples e pequenos e, claro, de saber usá-los de forma correta. Não será um grande mistério, mas lembre-se, os nossos protagonistas são duas crianças e o jogador precisa compreender a mentalidade delas; o fio de raciocínio é diferente de um adulto na mesma situação... fica o conselho: às vezes, realizar o fácil é mais desafiante do que fazer o difícil...

Conforme o game progride, a aventura aumenta. Um exemplo é do lobo perseguindo o nosso casal. É uma fuga rápida, mas se você se atrapalhar com os comandos pode dar ruim.

A partir daí, os diálogos são mais delineados e necessários para o discorrer da trama, por isso, é importante o conhecimento do inglês ou do francês que o jogo oferece. Não exige do player o “nível hard”, mas no mínimo o intermediário para entender o contexto da história, saber a utilidade dos acessórios e também fazer perguntas importantes e curiosas.

O pouco conhecimento do idioma não impede alguém de jogar Once a Tale, mas pode limitar a imersão e a experiência do jogo; se dominar tanto mais fácil será ter clareza das missões e também de se divertir com uma visão diferente dos personagens dos contos originais. Por exemplo, quando Gretel e Hänsel  escapam do lobo, eles descobrem que o animal não quer capturá-los, mas sim alertar eles de que aquele porco lá da primeira fase não é bonzinho, ele é mentiroso; sim haverá surpresas mais pro final do game. O lobo também fala de um flautista misterioso, será o famoso “Flautista de Hamelin”? Mesmo depois dos avisos, ainda assim, as crianças não dão crédito nas boas intenções do lobo e vão embora, deixando-o para trás.

É a partir desse diálogo, que as fases seguintes começam a apresentar uma série de personagens de contos de fadas variados e esses se referindo a outros mais. Haverá uma Branca de Neve mais independente, um segundo porco materialista, o tal flautista com ares misteriosos, um gigante completamente desleixado e beberrão; uma caverna onde mora um dragão leitor que não solta fogo pelo nariz porque faz mal; e que usa óculos e é bonzinho. Fora os inúmeros artefatos espalhados pelas fases que dão a ideia de outros contos implícitos como o chapéu do Chapeleiro Louco de “Alice No País das Maravilhas” que se encontra encima da mesa de chá e, em outro local, o sapatinho da Cinderela mais a abóbora.

Ao longo da jornada, Gretel e Hänsel  também vão encontrar e se identificar com a história de outros dois irmãos em apuros. Inclusive, o casal irá ajudar eles a se reencontrarem depois que um deles foi raptado pelo gigante abobalhado.

Para ajudar o tal garotinho, Gretel e Hänsel  precisam chegar a “mansão” do Gigante; na verdade se trata de uma casa, mas como todos eles são pequeninos, dizem mansão. Será essa fase uma referência dos desenvolvedores sobre a história de “João, O Pé de Feijão” ou do “Pequeno Polegar”, bem, fica a reflexão...

Quando cheguei em frente à casa, demorei um pouco para conseguir entrar, os irmãos não têm acesso a porta principal e deveriam ir ao outro lado da casa subindo em uma árvore a fim de encontrar uma entrada alternativa. Subir com a irmã foi moleza, já que ela escala tranquilamente, mas subir com o pirralho do Hänsel deu trabalho. Precisei descobrir que enquanto eu subia na árvore com a Gretel  eu precisava fazer uma ação que facilitaria a vida do irmão e a minha também. Nada absurdo para um conto de fadas, mas se não prestar atenção quem joga pode emperrar um pouco.

Depois que os dois estão dentro da casa do Gigante, o player está diante de uma das fases mais longas. Nela ele vai diversificar ações e movimentos em equipe e individuais. É um cenário bem lapidado, mas fica a recomendação: alguns dos ambientes dessa fase podem ser confundidos conforme a posição da câmera; e por isso, corre o risco do jogador refazer parte da fase, o que pode irritar um pouco, já que está no comando de uma dupla e não de um único herói.

Já o lance da câmera é dúbio, tem seus pontos positivos e negativos, não existe, ou pelo menos não encontrei a tecla para mudar a posição da câmera segundo a vontade do jogador. Meio que o player fica refém do ângulo que o jogo decidir ter, isso atrapalha ao visualizar a movimentação ou uma ação pretendida com os personagens, acontecendo os famosos pontos cegos.

Dependendo dessa oscilação, pode até mesmo travar os irmãos num canto qualquer da tela e então, o jogador ter certa dificuldade para entender o que está acontecendo. O controle fica ocioso e prejudica um deslocamento contínuo, nesse caso, é preferível voltar um pouco para melhorar a visão, e assim recomeçar de uma parte onde a cena está mais bem focada. O resultado é a retomada do controle dos personagens. Nota: essa nuance visual não se restringe apenas a fase do gigante, pode ocorrer em outras também.

Bem, voltando a casa do gigante, dá a entender que ele é um belo beberrão e desleixado. Por toda a casa há garrafas, caixotes, móveis e objetos espalhados. Nesta fase, conforme Gretel e Hänsel exploram os cômodos,  o jogador realizará infinitas subidas e descidas entre mesas, cadeiras, gavetas, teias de aranhas, escaladas por janelas, paredes e até na cama do gigante enquanto ele dorme. É uma fase que lembra um pouco o jogo “Toy Story” - a fase do quarto do Andy.

É só depois de todas essas andanças e de vencer todos os obstáculos que o casal enfim consegue resgatar o tal garoto raptado e leva-lo de encontro ao irmão que o espera na floresta. O nosso casal também pega as botas mágicas do gigante que permitem eles serem transportados para outras fases, poupando assim o jogador de perder tempo com caminhadas longas.

Importante: o save é automático apesar de considerar todos o progresso, não salva do ponto específico de onde o jogador está, é um save geral da fase. Outra observação, dependendo do ponto da fase que parou corre o risco de iniciar do começo, principalmente na reta final do jogo, digo por experiência própria.

Outra coisa, caso não utilize um controle, não esqueça de usar o botão direito do mouse. Ele serve para soltar objetos em locais determinados. Estou avisando porque ele é menos usado do que os demais comandos do teclado, e dependendo da concentração do jogador, ele pode não lembrar e lançar os acessórios longe do lugar desejado.

Apesar de possuir um comando prático, Once a Tale pede destreza, como no caso do carrinho em chamas onde ilumina uma mina. É um percurso feito por Gretel, porém se ela perde a iluminação volta para o começo.

Tenha também um olhar aguçado a todos os cantos da fase, haverá luzes discretas e apetrechos essenciais para o desenrolar uma ação. Tochas, pedras, tábuas, botões, árvores, passagens secretas, pisos, etc...

Tanto Gretel quanto Hänsel usam artefatos para atravessarem os obstáculos. Gretel arremessa um tipo de agulha de madeira que derrota os inimigos. Ela também usa um outro item para fazer fogo. Já o nosso caçula Hänsel tem o artificio de um estilingue que ele mesmo confeccionou numa fase anterior. É uma onde o player precisa procurar os materiais necessários para montá-lo. O garotinho atira com o estilingue para afastar os inimigos e derrubar as coisas que atrapalham o seu caminho e o da sua irmã.

Devido a oscilação da câmera, o player pode ter uma leve dificuldade para mirar tanto a agulha quanto o estilingue. Como disse, é preciso buscar então um ponto favorável da câmera para manter a mira exata.

Rumo as últimas buscando resolver os derradeiros desafios, o jogador anda bem mais com os dois irmãos. Não são fases enjoativas, mas precisa de mais paciência para chegar de um ponto ao outro; as botas do gigante não os levam sempre a todos lugares. Nessa reta final, a viagem de Once A Tale, enfim mostra que determinados personagens realmente não são aquilo que dizem ser; é o exemplo do porco.

Ao chegar na última etapa será exigido do jogador total trabalho colaborativo para enfrentar a “grande boss”: uma princesa maléfica. Aqui entra um das dica mais importantes do jogo: depois de jogar Once a Tale por algumas horas, o jogador pode achar até que manja tudo sobre a mecânica conjunta entre Gretel e Hänsel, e sentir-se absolutamente confiante de zerar a fase final, entretanto calma lá, ele pode ser surpreendido com a inversão de papéis dos nossos personagens.

É exatamente no último duelo com a “final boss”, onde o player queima alguns neurônios. Isso até decifrar a nova estratégia de ação dos irmãos. Depois de terminar com a inimiga, ele vai pensar: “nossa era só isso? Como não pensei nisso antes, era tão simples!”

E por favor, muito, muito cuidado quando começar a confrontar a tal princesa-vilã! Não saia do jogo antes de terminar todos os embates, porque dependendo, o save automático faz você retornar lá no primeiro duelo.

É legal notar essa sacada dos desenvolvedores de não só transformarem os enredos de alguns contos, como também, mudar o foco do vilão, geralmente masculino, para uma princesa possuída.

Eu gostei bastante de jogar Once A Tale. Uma temática nada infantil. Certos desafios só serão resolvidos a partir de um raciocínio lógico mais desenvolvido.

Como tudo na vida, tem lá os seus prós e contras. Não nego, existem situações onde há falta de nexo, como no momento onde eu jogava com Hänsel e caí num lago (imaginava ser um, já que era apenas um chão azulado). Ao cair, do nada ele fica em pé e parado, depois retorna a um ponto de partida jogável. A princípio pensei ser um possível bug, mas no fim, acabou mesmo parecendo que Hänsel havia “supostamente” batido as botas, porém ele não demonstrou nenhuma reação de dor quando “caiu”.

Se existe uma coisa rara de acontecer em Once a Tale são os nossos irmãos renegados morrerem em meio aos desafios, tirando a fase final da chefe. Tanto que não há barra de energia de vida. Até as aranhas quando eles encostam, eu notei que elas não os ferem, apenas empurram eles; então como resultado, o jogador começa de novo o desafio de passar por elas.

Gosto bastante da possibilidade de exploração que o jogo oferece, evidencia que Once a Tale foi bem elaborado. Claro, não é abrangente quanto um game de mundo aberto, mas ainda assim é prazeroso vagar a procura de novos esconderijos e desafios.

Resumindo, Once A Tale é uma experiência gratificante para descontrair em meio ao estresse cotidiano. Um jogo divertido entre revezamento de trabalho cooperativo e individual que acometem o nosso casal de irmãos, Gretel e Hänsel. Isso lembra ao próprio jogador de que na vida existem momentos de solitude e também de interação com as pessoa a sua volta.

 

Requisitos mínimo do PC

  • SO: Windows 10
  • Processador: Intel CPU Core i5
  • Memória: 4 GB
  • 10 GB de espaço 

 


“Once a Tale” é um jogo eletrônico de aventura desenvolvido pela Carcajou Games, Triple Boris. Distribuído pela 2 Igloos. Lançamento: 19 de abril de 2024 – Steam.

13 maio 2025

Teatro Também é Teatro Consciente

 O teatro da cidade de São Paulo

pode salvar a educação brasileira


Abro nossa abordagem falando um pouco sobre o PROGRAMA MUNICIPAL DE FOMENTO AO TEATRO, criado em 2002 (Lei Nº 13.279 - 8 de Janeiro de 2002), coordenado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Trata-se de um tema complexo, só darei uma pincelada no objetivo geral do programa. Para conhecer mais sobre, acesse a página oficial da Prefeitura de São Paulo, clique na imagem abaixo para saber mais:



"O Projeto Fomento vai em direção contrária ao mercado cultural na busca da formação crítica de quem faz e quem vê teatro."

 Teatro e vida pública: O Fomento e os coletivos teatrais de São Paulo – Editora Hucitec; 1ª edição 2012


    Hoje o que chamamos de Lei de Fomento nasceu a partir do manifesto Arte Contra Barbárie, encontros entre os agentes teatrais de grupos e companhias paulistas. Acesse: Arte contra a Barbárie

 "O objetivo maior da Lei de Fomento é o cidadão, a população. Lutar pelo direito à cultura significa ter em mente que somos agentes, que somos meios para que as pessoas tenham acesso ao bem cultural e artístico. Se o 'Fomento' vem proporcionando condições mínimas de trabalho aos coletivos contemplados não podemos nos acomodar dentro dos nossos grupos e companhias, mas ter em vista sempre o público, que afinal é quem contribui com os impostos para que haja saúde, educação e cultura. Quem sabe possamos promover a melhoria da vida em nossa sociedade."

 Teatro e vida pública: O Fomento e os coletivos teatrais de São Paulo – Editora Hucitec; 1ª edição 2012

       Como funciona na prática o fomento ao teatro?

Grupos independentes que não conseguem patrocínio direto para gerar recursos e desenvolverem o seu trabalho criativo tem a oportunidade de enviar o seu projeto para editais da Banca Avaliadora da Lei de Fomento.

Essa banca é composta por uma equipe do meio artístico teatral com uma boa caminhada sobre as verdadeiras necessidades de um coletivo, além de possuir ou ter experienciado um grupo já consolidado.

O projeto deve estar de acordo com as regras do edital selecionado. Apresentar o objetivo, plano de trabalho, cronograma financeiro (esse com limite), componentes do grupo e histórico do coletivo. A verba que vai abastecer esses grupos serão providas pela Secretária Municipal de Cultura.

Desde que a Lei de Fomento ao teatro surgiu, aumentou-se a criação de novos coletivos teatrais e continua crescendo, o que não significa que todos se firmam. Todavia, essa leva de nascimento aproximou o teatro da população que nunca havia tido a chance de pisar num teatro convencional. 

Projetos paralelos à Lei do Fomento, também acontecem na cidade. É o caso do Programa Vocacional. 

“Espaço que oferece orientação artística para o público acima de 14 anos em equipamentos da Secretaria Municipal da Cultura e Economia Criativa e nos CEUs da Secretaria Municipal da Educação.

Além dos encontros semanais, o Vocacional também realiza ações culturais complementares, atividades de vínculo e intervenção nos territórios da cidade, complementando os processos artístico pedagógicos com as turmas e/ou grupos atendidos pelo projeto.

As inscrições para o Programa Vocacional estão abertas durante o ano todo, basta ir até um dos espaços / equipamentos da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMC). VOCACIONAL – Centros Culturais, Bibliotecas, Casas de Cultura, Teatros, EMIAs e nos Centros Educacionais Unificados (CEUs).” 

www.portadeentrada.prefeitura.sp.gov.br/vocacional


Tais ações culturais incluem música, dança, circo, literatura, artes visuais e inclusive o teatro, são na sua grande maioria a porta de entrada para o indivíduo se inserir no mundo das artes.

O Fomento ao teatro não visa apenas o resultado do trabalho em si. Focada em um espetáculo de conclusão de curso como item avaliatório, mas favorecer a pesquisa, a busca de novas linguagens teatrais a partir de um trabalho contínuo. Foca principalmente, em a população usufruir do teatro como um instrumento educacional.

Grupos que são ou já foram fomentados como "Brava Companhia", "Companhia Sobrevento", “Cia do Tijolo” criam novos espaços para a encenação teatral.

Este Lado Para Cima - Pq. Santo Antônio - BRAVA COMPANHIA


Eles levam seus espetáculos às periferias paulistas, lugares onde uma determinada comunidade não possua fácil acesso aos tradicionais teatros, seja por locomoção ou fator financeiro. 


Os coletivos também transportam suas criações para as ruas do centro da cidade. Na maioria, são textos críticos estimulando o espectador a refletir a sua verdadeira postura na sociedade contemporânea.

E o melhor de tudo, são eventos gratuitos, tornando o teatro mais acessível da realidade financeira brasileira.


Fachada - TEATRO SOBREVENTO

Os grupos citados e outros também podem oferecer a formação de arte-educadores, oficinas de atuação, canto, palestras, workshops e uma gama de eventos que possibilita o indivíduo desenvolver-se como um ser pensante.


Saiba mais:
www.blogdabrava.blogspot.com
www.ciadotijolo.com.br
www.sobrevento.com.br

Claro que o teatro é um instrumento de diversão e distração após um dia cansativo, são momentos importantes para nossa vida. Mas, podemos ir além.

Eu também sou a favor da "educação-teatro", porque sempre enxerguei essa arte que transcende o apenas o entretenimento.

Ele permite o espectador pensar, questionar, modificar ou mesmo negar uma situação. O teatro exercita a criatividade a crítica, sendo um trunfo para uma sociedade mais justa e humana.

É preciso entender o nosso valor no coletivo onde vivemos. Exercer a cidadania de forma honesta visando o bem de todos.

O Brasil tem um desempenho baixo no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). Segundo os dados, foram avaliados estudantes de 15 anos em matemática, leitura e ciências. Em 2022, o país ficou na 65ª posição em matemática, 52ª em leitura e 62ª em ciências, entre 81 países participantes. 

Como sabemos o nosso país tem uma grande população e no ensino básico, crianças e jovens tem pouca facilidade com estudos por diversos motivos.

O governo continua inadequado e sem justa transparência para atender a demanda da educação brasileira que só aumenta.

São Manuel Bueno, Mártir - TEATRO SOBREVENTO


Se perguntar o que é educação, muitas pessoas não saberão responder. Educação, segundo o Dicionário Online de Português é:

“Ação de desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais e morais: a educação da juventude.”


    Hoje, alunos batem, arremessam mesas, cadeiras e rasgam diários de classe dos professores, como podemos esperar uma sociedade pensante e respeitosa?


Cia do Tijolo

Apesar do lado negativo, observa-se também iniciativas positivas a partir da ferramenta artística. É o exemplo de professores da rede pública municipal de São Paulo levar seus alunos ao teatro, onde assistem espetáculos a preços populares.


Isso é um passo na melhoria da qualidade de ensino. E já que não temos o respaldo necessário de uma política honesta e de completo interesse pelo nosso povo,  parte a sociedade se mobilizar e fazer a sua parte. O teatro paulista é uma esperança. É o "jeitinho brasileiro" do bem!

Recomendo a leitura do livro “Teatro e vida pública: O Fomento e os coletivos teatrais de São Paulo”para saber mais sobre a Lei de Fomento e a democratização do teatro e, também a resenha "A Representação que está nas ruas e nos livros" de José Rubens de Lima Jardilino, que aborda a obra "Tá na rua: representações da prática dos educadores de rua" de José Luís de Almeida, link: A Representação que está nas ruas e nos livros


Bibliografia:

Iniciação ao teatro – Sábato Magaldi
Teatro e vida pública: O Fomento e os coletivos teatrais de São Paulo” - Cooperativa Paulista de Teatro - 2012 
O teatro e a angústia dos homens – Pierre-Aime Touchard
www.portadeentrada.prefeitura.sp.gov.br/vocacional/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_contra_a_Barb%C3%A1rie
www.blogdabrava.blogspot.com
www.ciadotijolo.com.br
www.sobrevento.com.br
www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/fomentos/teatro/

Análise jogo - "Brothers - A Tale Of Two Sons" (PC) - Um jogo diferenciado!

Brothers: A Tale of Two Sons
O Game de Caráter Coletivo



                                                      clique aqui vídeo completo                                                                             
 

     Estava eu em casa na última madrugada de sexta-feira “vagando pela web” quando tive a deia de procurar algum jogo interes­sante para me distrair. Como há muito tempo estou desatualizado dos últimos lançamentos, “dei um belo google”, mas não encontrei nenhum que despertasse o meu interesse.

Outro desafio, não tenho controle, então, uso o teclado do notebook e isso limita um pouco a jogabilidade, porque muitos games pedem diversas combinações.

No entanto, por eu ser um pouco do contra, não buscava jogos comerciais, privilegiava mais os jogos indies. São igualmente criativos e inovadores quanto os de grandes empresas, detalhe: com orçamento bem mais limitado. Muitos desses jogos de estúdios independentes são de alta qualidade e garantindo di­versão por horas!

Enfim, ao longo da caçada, eis que leio no site da Steam o parecer de um jogo com um nome curioso: "Brothers - A Tale of Two Sons".

 

“junte-se aos irmãos para uma jornada épica de conto de fadas, criado pelo visionário sueco diretor Josef Fares e o desenvolvedor do Starbreeze Studios. Controlar os dois irmãos ao mesmo tempo: uma mecânica cooperativa...nunca vi! Resolver quebra-cabeças, explorar diferentes cenários e lutar controlando um irmão em cada situação.”

 

O meu primeiro pensamento foi: o que o o usuário quis dizer?

Cliquei e continuei lendo o conteúdo, mas o que no fundo chamou a minha aten­ção não foi a sinopse, mas sim, as imagens sensacionais de alguns cenário do jogo. Todas em alta resolução. Detalhes e traços bem trabalhados. Remeteu aos meus sentimentos, não sei explicar, só sei que gostaria muito jogar Brothers: A Tale of Two Sons. Depois desse devaneio interior, resolvi pesquisar mais sobre a sua história do jogo.

O enredo narra dois irmãos vivendo num pequeno vilarejo com o pai doente. Eles precisam se aventurar mundo a fora para encontrar o remédio que irá salvá-lo. Os desafios que aparecem ao longo do caminho são resolvidos em ações conjuntas entre eles.


Diante do game abordar uma temática solidária, o meu interesse só aumen­tava.

Ao iniciar, a abertura, o cenário e a trilha sonora são emotivas. A primeira ima­gem é do irmão caçula ajoelhado em frente a uma lápide. Nada de spoilers. Só assistindo para entender as entrelinhas.

O jogo desafia o player com diversos quebra-cabeças. Além da lógica, pede criatividade para encontrar estratégias e assim, avançar na trama.

Vamos examinar os protagonistas. O caçula é uma criança. Mais inocente, sensível e bagunceiro na interação com o irmão. Já o mais velho, é ado­lescente o “cabeça” - usa a lógica, e em determinadas partes, também a força física.

Quem tem irmãos pode se identificar com tal hierarquia.

A jogabilidade é interessante, porque o jogador precisa controlar os dois si­multaneamente. Seja para se movimentarem ou realizarem ações. Nota, di­ferente dos games atuais, são comandos simples, nada de combinações exces­sivas. Principalmente quando são aquelas focadas no trabalho em equipe. Um exemplo, é o “pezinho” para pular.

Apesar de ser um jogo de um único player, é necessário realizar atividades con­juntas para prosseguir, senão nada feito. Vai empacar na fase. Cada desafio re­quer a força dessa "dupla de dois".

O jogo hipnotiza do começo ao fim. Envolve o jogador num espírito humanitário, prazer nas brincadeiras inocentes e aceitação do trabalho coletivo. É como se o jogo indiretamente indicasse: “ninguém é uma ilha”.

Os desenvolvedores se preocuparam com os mínimos detalhes, tornando a aventura uma obra-prima a parte.

As paisagens bem elaboradas e cores vivas destacam toda a ambientação. Passei um tempo atento em cada cena ali.

A trilha sonora com músicas instrumentais relaxam o jogador. Abraça ele em momentos de reflexão.

E assim como a música, os efeitos sonoros são de extremo cuidado. Há sons da natureza como rio, mar e outros permeando os cenários. A interação dos ani­mais junto com os nossos heróis, mistura diversão, emoção e inocência juvenil.

Atentei-me principalmente, aos sons emitidos pela dupla durantes as interações coletivas. Cada uma dessas, tinha o seu significado, servindo de orientação para avançar através da narrativa.

O diálogo dos meninos é uma incógnita. Não é português, inglês, russo ou mesmo mandarim. É uma linguagem própria dos personagens. Mas calma, não se aflija. As imagens e situações deixam claras o que eles precisam fazer e até o que sentem. 

Interessante observar que passando cada desafio, é como se os garotos amadurecem internamente. A comunicação deles mostra-se mais profunda em busca do elixir para salvar a vida do pai. O jogador não só cumpre missões, mas sente compartilhar com os irmãos alegria, dúvida, emoção e confiança. Ele se torna um membro da família!

“Brothers: A Tale of Two Sons” não é um jogo limitado ao ambiente virtual, pos­sibilita reflexões para o jogador diante da sua realidade pessoal, caso esteja receptivo.

A nível individual, posso citar: valorização da vida, amizade, família e também momentos de descontração. No âmbito de equipe, pensando numa pós pandemia Co­vid-19: o cuidado com a natureza, ajuda ao próximo, empatia, dividir mais alegria com quem amamos e principalmente fortalecer a fé do próprio jogador. Uma mensagem de força e superação diante das provações. Continuar se­guindo em frente.

Os movimentos conjuntos além dos irmãos, também abrange os demais persona­gens. Cada auxílio dado, será essencial para chegarem no final derradeiro.

Sem dúvida, quem se aventurar na jogatina de “Brothers - A Tale of Two Sons"., com certeza, vai encontrar muitas outras percepções relacionadas ao seu mundo pessoal.

A única ressalva é o jogo ser curto, deixando aquele gostinho de quero mais. Três a quatro horas, dependendo, você zera. Joguei aos poucos para apreciar os mínimos detalhes e não perder nenhum momento bacana!

Agora, para os curiosos, se a dupla consegue salvar a vida do amado pai? Bem, os criadores deixaram o mais emocionante para o final. Fecharam com chave de ouro. Nada de spoiler! Vai lá jogar...

Resumindo: "Brothers - A Tale Of Sons" é uma relíquia em meio a essa onda de jogos distópicos e violentos. Um jogo válido para todas as idades.

 



Brothers: A Tale of Two Sons é um jogo eletrônico de aventura desenvolvido pela Starbreeze Studios e publicado pela 505 Games para Xbox 360Microsoft WindowsPlayStation 3PlayStation 4Xbox OneiOSAndroid e Windows Phone. Lançamento: 07 de agosto de 2013 – R$ 6,99 – Steam.